Animais me percebem, paisagens me escutam, de Ana Mundim [Curta Mais Dança]
Animais me percebem,
paisagens me escutam
Para que serve o exercício da crítica teatral? Para quem escrevo? Para o artista em cena, ou para o público estudante da área, também artista? Ou a crítica é um chamamento para outra pessoa decidir vir assistir, feito um catálogo CríticaFlix?
Tenho me questionado justamente isso nesse exato momento que assisti à videodança de Ana Mundim. Como escrever paisagens? Como escrever sentidos? Como escrever materialidades de uma cena longínqua e equidistante?
Se fosse um CríticaFlix (acho que quero trabalhar nesse quadro, rs), eu diria que é livre para qualquer idade, entraria na categoria SPOTIFY para ficar 'goodvibes'. Se eu fosse escrever para o público que está em busca do que ver, desnorteado das inúmeras opções/logaritmos de busca, eu diria:
- Veja e olhe atentamente ao seu redor. O chão possui microfissuras. O ar contém minúsculos seres. Os animais da sua casa dialogam com você através de gestos e afetos, portanto, veja! Você não está sozinho. Você não é sozinho! Você faz parte do natural. Naturalize-se!
Se eu for escrever para um público estudante da área, eu teceria um discurso sobre o corpo e o que pode o corpo nesse distanciamento social, nessa insana presença da morte diariamente, nesse procurar, dentro do caos, uma organização corporal e imagética. Há corpos em dunas buscando o sentir e o vivenciar na pele a sensação de estar viva. Estar viva. Estar viva. Estar viva. Estar viva. Estar viva.
Contudo, não decidindo o público a que me reporto, opto por uma escrita de exercício crítico descritivo, que explora subjetividades e que, possivelmente, encontre eco poético na dança individual praticada dentro do mundo possível nessa pandemia. Não há métricas para a fruição. Nem espacialidades determinadas.
Todo processo de escrita é um ato de inferência. A cena inicia com o foco recortado da duna, um recorte de areia, que se move de dentro pra fora, construindo a imagem de um organismo vivo respirando: a terra. A imagem provoca a sinestesia pulmonar - em isolamento. Logo após, uma mulher branca, vestida com um vestido vermelho, caminha na imensidão das dunas apresentadas agora em quadro aberto. O céu é de um azul claro, pouquíssimas nuvens. Há elevação em alguns montes de areia, o que nos faz perceber, na linha do horizonte, curvas poéticas do espaço que dialogam com os movimentos circulares dançados pela multiartista. Os cabelos voam, os grãos de areia saracoteiam o entorno do seu corpo. Há instantes que ela deita, rola, toma banho de sol, olhos fechados, feito planta, feito natureza. A trilha sonora é uma outra que não a da paisagem. É uma música francesa. Levou-me para Amelie Poulain e o fantástico mundo. Eu ouviria mais atentamente o natural. Eu ouviria mais o som do vento, o som da tempestade de areia, o assobio da natureza em espaço aberto, viva! Um cachorro aparece e eu me questiono: de onde ele veio? Logo depois ele cava a areia; eles cavam a areia. O cachorro em um nível consciencial da espécie, do alimento, do guardar. Ela, a querer uma volta ao natural, um reencontro corporal com os elementos sensitivos do Espaço. Um e outro, correlacionados. Mulher e Natureza imbricados. Há um instante em que Ana Mundim fixa o olhar para a câmera, para mim, para nós. O momento que a dança passa a interiorizar nos meus olhos, como se eu tivesse sido descoberta do meu ato de observação. Há um leve sorriso no olhar. Descrições de uma dança imaginária.
Em detrimento ao observado e ao sentido, seguem os questionamentos possíveis tidos nesse dançar/atuar em isolamento, a distância, ou, como diz Ana Mundim (intérprete) e Morena Nascimento (direção), uma relação telepática, conectando mentes, estabelecendo formas-pensamento em um contexto temeroso, assustador que tem sido a pandemia do Covid-19. Há mortes e vidas em todos os lugares, habitados e inabitados. Materialidades densas e imaterialidades sobrepostas.
É uma prática dançada onírica, em que o intento mesmo deva ser caminhar. Caminhar aqui, agora e além. Caminhar e entender as linhas e curvas da improvisação. Caminhar e praticar o que está ao nosso alcance, como artista, incorporando nesse cenário contemporâneo a Arte, a Dança e o Diálogo.
E aqui retomo as provocações iniciais:
O que pode a crítica contemporânea hoje?
O que pode a crítica contemporânea nesse lugar virtual?
O que pode a crítica contemporânea em Fortaleza?
Se, nesse exato momento, enxergar o olhar da palavra, buscando o seu pensamento, acredite, é este o motivo deste exercício crítico teatral: criar lugares de existir.
Dialogue-se! Logue-se! Em Teatro, em Dança, em Virtualidades, em Ausências, em Presenças. Dialogue-se! Logue-se!
Logar: Ter acesso à área reservada de um site ou programa de computador através de um login, com nome de usuário e senha; fazer login, acessar, entrar.
Acesse! Entre!


Boa tarde,muito produtivo esse vídeo,uma relação extraordinária entre o ser humano, a natureza e os animais
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