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Curva Sinuosa, de Jéssica Teixeira

           


Crítica em áudio: Curva Sinuosa, de Jéssica Teixeira



            A Crítica está sentada em uma cadeira cinza, seminua. À sua frente, uma Smart Tv conectada em uma rede sem fio que projeta imagens de mares, rios, cachoeiras, natureza. O som a concentra e não a faz adormecer após um banho de chuva passageira. Águas.

Para quem parte do princípio da planicidade da Terra, as curvas e suas nuances são imaginações, devaneios, realidades inexistentes. Espaços impossíveis de serem explorados tão somente pela incredulidade que eles existam. E é sobre estas ranhuras opostas umas às outras, o lugar da imprevisibilidade que o corpo também pode ser. Da fantasia do possível: uma encenação para se ouvir e movimentos para imaginar.


Um o complemento do outro, dois lados de uma moeda e a ausência que preenche a curva: não se sabe o que irá encontrar ao dobrar a esquina. Ao se curvar, resta-nos descer diametralmente uma escada.

 

O espetáculo de Jéssica Teixeira, “Curva sinuosa” fez com que eu decidisse assistir duas vezes: uma com o olhar, outra com os ouvidos. São diferentes e são iguais. São contrários e semelhantes. É um risco paradigmático entre aquilo que é e o que se pensa ser. 


Em um primeiro momento, assisti uma sucessão de imagens que remetiam a Salvador Dali, para lembrar da obra Os elefantes (1948). Um corpo feminino, altivo, com uns 2 metros de altura (também possa ser a sensação imagética da gravação), revestida com uma saia extensamente caída, dorso em um ‘tomara que caia’. (Ou é esta a imagem que inventei da ‘parte de cima’, um tomara-que-caia.) Talvez semelhante ao clichê dito por Ela., na parte em que menciona seu calção e top preto. Na parte em que seu corpo é esta imagem que também possa ser inventariada.



Eu ofereço meu corpo a. 



Spoiler: os detalhes da cena só ficam ecoando quando se vê com os ouvidos. É preciso escutar.


Com os olhos, a beleza dos quadros, dos cortes, da sinestesia com a música causa na verdade uma cegueira. Você não vê de fato o que se é. Só é visto no silêncio. Só é visto em áudio descrições que fogem daquelas: parede branca, roupa quadriculada, quarto em penumbra. A montagem anuncia uma intimidade acessível na escuta. Sensibilizadora de sentidos. 


As cortinas se abrindo, os passos descendo as escadas, o tilintar de copos dágua, o barulho do spray, a voz suave da canção Majestade, o sabiá, o banho de água fria - na escuta é uma metáfora. Na literalidade, a atriz é banhada violentamente com água e recebe uma toalha - é o que lhe recompõe. Depois de ouvir, eu enxerguei os lábios retorcidos, o corpo picotado, a dança silenciosa e as passagens por indeterminados e vários lugares através da sonoplastia.


Assista com os ouvidos. A cena está no escuro.




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Informações retiradas Cine Teatro São Luis

"Curva Sinuosa", espetáculo de Jéssica Teixeira, surge do projeto “Partindo do princípio de que a Terra é plana, sou toda curva e desvio”, uma continuidade da pesquisa “Corpo Impossível” já iniciada pela artista em 2017 quando decidiu seguir carreira solo e mergulhar fundo no próprio corpo – sua matéria prima de trabalho. A encenação ficará disponível para visualização por uma semana.
A artista
Jéssica Teixeira é atriz, produtora e diretora. Graduada em Teatro – Licenciatura pela Universidade Federal do Ceará e Mestre em Artes pelo Programa de Pós Graduação em Artes também pela UFC. Trabalha com as artes da cena desde criança e, atualmente, desenvolve uma pesquisa sobre "Corpo Impossível" a partir da investigação sobre o seu próprio corpo estranho, matéria prima para a criação do seu primeiro solo “E.L.A”, onde está como atriz, produtora e dramaturga da obra e do documentário "Pudesse ser apenas um enigma", onde assina a direção e o roteiro do filme.
Ficha Técnica
Direção: Andreia Pires
Roteiro: Andreia Pires e Jéssica Teixeira
Edição: Pedro Henrique
Produção: Jéssica Teixeira
Produção Executiva: Pedro Leão
Assistência de Produção: Aristides de Oliveira
Direção de fotografia: Luiz Ramon
Câmeras: Lua Alencar e Luiz Ramon
Iluminação: Jéssica Teixeira
Colorista: Pedro Dulce
Trilha Original e design de som: Pedro Madeira
Captação de áudio: Pedro Henrique
Figurino: Isac Bento
Contrarregras: Aristides de Oliveira e Jupyra Carvalho
Consultoria em Acessibilidade Cultural: Gislana Vale



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